Para que não existam enganos
Convém referir que tenho muitos defeitos: arrasto os pés; mordo os lábios, rio-me com demasiada facilidade e estargo os bolsos todos das calças porque ainda não se fabricam calças com bolsos suficientemente fundos para que neles me possa caber a totalidade das mãos. A quem interessar, que fique desde já assente. Penso, perco muito tempo na inércia de pensar, a formar pensamentos que são espirais de fumo: falsamente voláteis. O que eu gostava mesmo era que não fosse assim: que as minhas mãos não tivessem tanta necessidade de caber nos bolsos das calças, que não arrastasse tanto os pés ou que calçasse um número mais pequeno de sapatos (o que já seria alguma coisa). Que não procurasse tantas respostas para as perguntas que me esqueci de fazer. Que me não ausentasse tanto. A ausência é um estado de alma que amolenta e dói. Bastaria ser feliz por nada, era quanto bastava.

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