À espera de Godot...
Perfeitos anjos, nas escandalosas memórias que tinham. Na pele, nos cabelos, no brilho dos olhos.
Perfeitos. Nus, amorais, renascentistas. Eram frescos nas paredes da sua alma. Revelavam profecias. Mudos lábios húmidos.
Eram perfeitos corpos, vitimados pela sede. Caídos pelo chão, nos palácios amplos dos seus pensamentos.
E os seus pés, de volta a casa, (numa manhã muito clara), tocavam-lhes ao de leve. A biqueira suja das botas na sua pele rosada e fria.
Um antebraço, a curva litúrgica do dorso, um ombro, um calcanhar, a prega fina das nádegas.
Deixava minúsculos pedaços de lama na brancura desses corpos. Perfeitos que eram.
Mortos à sua espera. Como jovens flores fanadas.
A luz, pelos vidros quebrados das janelas, bombardeava-os em cheio nos rostos.

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