sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Vida Citadina

As ruas enchem-se de realidades diversas.
Somos todos tão diferentes uns dos outros, uns levantam-se cedo demais, outros vão em stress de tão atrasados que voltam a estar. Existem aqueles que só de olhar vemos que levam vidas difíceis, outros parecem levá-la fácil demais. Somos todos tão únicos! Nos transportes apertamo-nos como se irmãos fossemos, mas depois desviamos o olhar e não nos permitimos o contacto corporal intencional. Uns lêem, outros ouvem música, alguns nada fazem e há até quem durma. A regra é não invadir o espaço alheio, não estabelecer contacto. O contacto fica reservado para os colegas de trabalho e ainda mais para os amigos.
Nos dias citadinos todo o minuto por vezes é crucial, como a diferença entre apanhar o metro às 8h05m ou às 8h13m, no primeiro caso vamos sossegados, ainda arranjamos lugar, no segundo vamos comprimidos e espalmados de encontro a mil desconhecidos, todos indiferentes ao que acontece (é o hábito).Cada indivíduo cria a sua própria bolha protectora. O tamanho desta bolha vai aumentado ou diminuindo consoante as necessidades e possibilidades do espaço circundante. Exemplo disto são os lugares públicos onde podemos sentar e descansar um pouco, seja porque nos apetece ou porque temos que esperar por algo. Se tivermos à escolha duas correntezas de bancos, vamos escolher sempre aquela que está mais vazia e mais distante de alguém que por ventura já se tenha sentado antes. Num contexto de muito espaço, o mais natural é não nos aproximar-mos de quem ali está e até de ficarmos ligeiramente incomodados se outro alguém não respeita estas regras subliminares. Por outro lado, num contexto de falta de espaço, o nosso critério de escolha altera-se, mesmo o nosso ponto de ofendimento passa a reger-se por padrões diferentes. Neste contexto de super-lotação achamos mais que natural que alguém se sente ao nosso lado, em vez de no outro banco mais distante (os bancos são raros - há que aproveitar), também não nos ofende sobremaneira se alguém que vá em pé espete o cotovelo na nossa nuca, ao fazer esforços hercúleos para se manter equilibrado.
Há quem prefira ter a sua bolha bem estabelecida, para tal andam quase sempre de carro e preferem dar-se exclusivamente com aqueles com quem trabalham e aqueles que fazem parte da sua rede social. Não são poucos os que por esta via optam, apesar de frequentemente demorarem mais tempo a chegar ao destino do que se utilizassem os transportes públicos (para além de passarem a ter um comportamento mais responsável para a preservação do meio ambiente). Se atentarmos bem num verdadeiro engarrafamento, atolado de carros, camiões e afins, todos parados e à espera da oportunidade de furarem para uma faixa que está mais rápida ou de se meterem por um atalho. Aí podemos observar algo curioso: os carros quase que nos servem como bolhas. Chocante é verificar que a maioria destas bolhas de facto só transporta um passageiro. Ao demorarmos os olhos por um engarrafamento é isto que podemos ver, milhões de carros a fazer barulho e a expelir gases, cada um deles ocupado exclusivamente por um motorista, ou seja, um carro por pessoa. Desta perspectiva quase que nos podemos imaginar a afastarmo-nos céu acima, ver bem o aglomerado e tentar imaginar como seria aquilo sem os carros-bolha, provavelmente veríamos um grupo de pessoas, distribuídas de forma semi-organizada, mas dispersa, todas a distarem entre si cerca de 2/3 m2.
Isso, e muito mais, faz parte da vida citadina. No entanto, mexemo-nos pelos memos sítios, usamos a mesma linguagem e obedecemos às mesmas regras (as estabelecidas pelo Pacto Social, do qual nem consciência temos que assinámos).
É assim...
Rantanplan dixit

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

muito bom

9:21 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Mexemo-nos nos msmos sítios mas não no mesmo contexto, falamos a mesma linguagem mas é em vão que tentamos representar os mesmos signos, o riste é que, só falamos a mesma linguagem porque tentamos obedecer ás mesmas regras. O tamanho da "bolha" também varia, em áreas privilegiadas tende a ser de 5 a 8 m2.

10:33 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Que bem que se está no campo...

10:37 p.m.  

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