Nem sequer estava muita gente no café, na verdade, eram umas cinco pessoas. Daí que eu sinta uma certa dificuldade em explicar o facto de ter ficado quase dez minutos à espera de pedir um café. A menina que comandava os nossos destinos e que decidia quem e a que horas iria tomar a bica, tinha perfeita consciência da minha presença: os nossos olhares cruzaram-se indistintamente umas quantas vezes. Contudo, a organização das chávenas e dos pires segundo um esquema mental para mim impossível de enquadrar dentro de um padrão minimamente lógico, parecia-lhe mil vezes (dez mil vezes) mais importante, ocupando todo o seu pensamento autista (ele há autistas onde menos se espera...). Quando por fim se dignou a pousar o paninho húmido, olhou-me com um profundo suspiro. Palavras tais como "o que deseja?" - simples, mas bonitas - ficaram-lhe presas algures no peito.
"Era um café e um copinho de água. Se não for muita maçada..."
Olhou-me com um fastio mal reprimido. Eu segurei-lhe bem o olhar pensando com muita força: "Gran-de va-ca!".
Sílaba por sílaba e para não haver enganos.
Existem pensamentos que o nosso olhar verbaliza.
Posso afirmar que ela não mugiu só porque estava para me contrariar.
Piropos como "porca, parva, badalhoca e balzaquiana", ficam para a próxima vez que nos encontrarmos.

3 Comments:
Aí está! Simples, muito simples...logo...muito bonito!
no porto há uma autista destas... tem os dedos dos pés compridos e porcos
Gostei munto!
Enviar um comentário
<< Home