domingo, maio 21, 2006

A presença do mar

A água do mar cicatriza, mas deixa presente a memória das marcas. Rói a carne e eterniza o facto de um dia ter existido dor. Ausento-me de todas as coisas, primeiro era o verbo - líquido - a prender-nos a língua. A água do mar é o mantra mais fatal e o mais antigo. É o vértice superior do triângulo. A dor dói até passar-se. Já não é. Parei-a. Colapso exangue ao sol como nos braços de um amante frio. A voz do mar reitera para sempre o facto de haver sangue e deste me pulsar de culpas humanas nas veias. Conto as ondas. Sete, até uma maior. Sete é o número exigido à perfeição. De bruços, o ventre exposto ao sol e aos gritos das gaivotas. O sal seca em crostas finas e o sol dilacera de calor e prontidão. A água do mar come as feridas. Deixa só presente a memória de termos existido nelas.