Homens
Esta semana fui visitar uma prisão. Um senhor de 1m50, óculos, fato e gravata fez as honras da casa. Orgulhoso recebeu a excursão de “senhores doutores” quais crianças entusiasmadas com uma ida ao zoo. Sentámo-nos numa grande mesa redonda onde o sol irrompia janelas adentro. O senhor de 1m50 sentou-se à cabeceira e disse num tom grave e paternal que iriamos ver um dos maiores espectáculos da humanidade - o hominus reclusus. Luzes, música, tambor! Qual Vitor Cardinali fizeram-se as apresentações do melhor do espectáculo: o guru do sitio, um sujeito irrecuperável tal e qual uma “ árvore que nasce torta e jamais se endireita”; a espectacular “arrumação de homens” em alas; a unidade livre de drogas e a ala dos horrores...
Nas pausas fazia questão de transparecer um olhar conhecedor e vivido. Avisou também as senhoras que iriam ouvir piropos, porque eles (rindo-se traquinamente) “ não vêm mulheres com muita frequência.”
Depois das advertências lá entramos. Chaves, tilintar, abre-se uma porta, fecha-se outra.
A Unidade Livre de Drogas é um corredor escuro, sem sol e muito comprido. Ao longo do corredor estão os quartos de dormir do hominus reclusus. Refira-se que este para além de ter perdido a sua liberdade, perdeu também a sua intimidade. Ao longo do corredor o tal senhor fez questão de abrir várias celas por onde a excursão entrava entre cotovelázios e empurrões, tal era a curiosidade.
Ao fundo do corredor, a biblioteca, onde um professor de música ensinava alguns acordes que se confundiam de forma barulhenta com o eco provocado por 1000 homens.
Nesta unidade os Hominus Reclusus têm tarefas. Tarefas mui dignas e motivantes, como o ponto cruz, arraiolos, pintura de azulejos. Como consolo ficou o sorriso da disputa clubistica bordada em lã, predominantemente verde ou vermelha, com um leão ou uma águia, conforme as preferências.
Depois a tão esperada visita. O ponto alto. A visita à ala dos horrores. Entramos avisados para não nos afastarmos do forte e corajoso guia. Chaves, tilintar, abre-se uma porta, fecha-se outra.
O mesmo corredor escuro, a mesma falta de luz. Aqui já não se borda, não é uma unidade livre de drogas. Fala-se e fumam-se cigarros. Afinal não era o espectáculo prometido! Tinha sido burlada! Eram os mesmos homens, mais entediados, menos curiosos por ver quem passava. As mesmas camas, as mesmas horas. Ao fundo do corredor a mesma biblioteca, sem música. Em vez disso um senhor amabilissimo (acho que era o irrecuperável), o guardião dos livros e revistas, que se mantinha ocupado em ter sempre o espaço em ordem.
Nas pausas fazia questão de transparecer um olhar conhecedor e vivido. Avisou também as senhoras que iriam ouvir piropos, porque eles (rindo-se traquinamente) “ não vêm mulheres com muita frequência.”
Depois das advertências lá entramos. Chaves, tilintar, abre-se uma porta, fecha-se outra.
A Unidade Livre de Drogas é um corredor escuro, sem sol e muito comprido. Ao longo do corredor estão os quartos de dormir do hominus reclusus. Refira-se que este para além de ter perdido a sua liberdade, perdeu também a sua intimidade. Ao longo do corredor o tal senhor fez questão de abrir várias celas por onde a excursão entrava entre cotovelázios e empurrões, tal era a curiosidade.
Ao fundo do corredor, a biblioteca, onde um professor de música ensinava alguns acordes que se confundiam de forma barulhenta com o eco provocado por 1000 homens.
Nesta unidade os Hominus Reclusus têm tarefas. Tarefas mui dignas e motivantes, como o ponto cruz, arraiolos, pintura de azulejos. Como consolo ficou o sorriso da disputa clubistica bordada em lã, predominantemente verde ou vermelha, com um leão ou uma águia, conforme as preferências.
Depois a tão esperada visita. O ponto alto. A visita à ala dos horrores. Entramos avisados para não nos afastarmos do forte e corajoso guia. Chaves, tilintar, abre-se uma porta, fecha-se outra.
O mesmo corredor escuro, a mesma falta de luz. Aqui já não se borda, não é uma unidade livre de drogas. Fala-se e fumam-se cigarros. Afinal não era o espectáculo prometido! Tinha sido burlada! Eram os mesmos homens, mais entediados, menos curiosos por ver quem passava. As mesmas camas, as mesmas horas. Ao fundo do corredor a mesma biblioteca, sem música. Em vez disso um senhor amabilissimo (acho que era o irrecuperável), o guardião dos livros e revistas, que se mantinha ocupado em ter sempre o espaço em ordem.
Chaves, tilintar, abre-se uma porta, fecha-se outra.
Quando cheguei a casa ouvi uma boa noticia, parece que o governo quer transformar todas as alas em Unidades Livres de Droga.

2 Comments:
Adorei esta descrição. Para além de ser um retrato que penso que será fiel à realidade, está mui habilmente escrito. Recorrendo a analogias e comparações dignas de mestre, dá indícios do que poderá estar mal aplicado (exemplo da falta de privacidade).
É um texto lindissimo, muito bem escrito e que foca um tema relevante e interessante!
Mais uma vez o Nossoautista revela a sua arte em explendor. Que orgulho tenho em poder disto usufruir e fazer parte.
PARABÉNS!!
quanto é q pagaste pelo bilhete?
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