quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O Sono

Luar e peixes. Os braços cansados de flores e de sono.
Recordar-se-á sempre dela no passado. O ventre quente, de manhã, muito cedo.
Pousava a cabeça na manhã e no ventre.
Recorda-se da pele entre os seios: salpicada de sinais. E dos pulsos azulados por miríades de veias finas.
Sentava-se na cama a olhá-la. À luz pobre das persianas cerradas, o peito sobe e desce a intervalos regulares.
Abandonada no sono e perdida em reinos distantes. Ela, abandonava-a também.
Acostumou-se a olhá-la enquanto dormia. Sentada na borda da cama. Com o olhar sacrílego de quem viola jazigos.
Era este o seu segredo: sempre suportara mal adormecer ao lado do seu corpo. Partia antes de ela acordar. Constrangida.
Para regressar à tardinha - os olhos sujos de mundo e de medo, marejados de promessas. Pesados, pesados de espanto.
Abria devagar a porta do quarto: o soalho rangente, o calor tépido dos objectos banais. O calor brando do corpo dela estendido molemente na cama.
Abria devagar a porta do quarto e caminhava em silêncio para o círculo macio dos braços que ela lhe oferecia.
Luar e peixes. Os olhos cansados de flores e de sono.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

o sono por vezes pode ser reparador

1:55 p.m.  

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