segunda-feira, janeiro 30, 2006

O caderno

Encontraram o seu corpo debaixo de um laranjal. A barriga à luz da lua. Foi numa noite de verão e cantavam as cigarras. Encontraram-o os cães e logo à sua volta se juntaram as caras sonolentas de toda a família.
As mulheres sentiam o calor trepando do chão e subindo por entre as pregas soltas das camisas de noite. As crianças não traziam sapatos e esfregavam a sola dos pés na humidade da terra.
Os homens, primeiro olharam para as pernas das mulheres através da transparência das saias, depois, olharam para o cadáver.
Migiu longamente uma vaca na fartura da noite.
Um dos rapazes mais novos baixou-se e tentou fechar os olhos ao morto; teimosamente estes tornaram a abrir-se e o olhar parado, a par com o sorriso mole, davam-lhe um ar beato.
Algumas mulheres começaram a rezar baixinho e as crianças riam-se em sussurros e acotovelavam-se umas às outras.
A noite tinha a textura macia de algumas pedras e os homens não diziam nada.
O ventre do morto brilhava redondo como um peixe ao luar. As mãos rechonchudas seguravam um pequeno caderno preto. Os braços emolduravam o abdómen e uniam-se segurando o caderno, pousado no baixo-ventre.
Ninguém lhe toca. Olham.
Uma das mulheres quebra o silêncio.
- Foi por mor dela, que este se matou.
Responde-lhe a noite e as cigarras.
- É chamar um padre - diz um dos homens - antes que lhe caiam em cima as laranjas.
Acenam que sim. Um mais moço vira costas em direcção a casa.
O morto sorri, de olhos na abundância das estrelas e as mãos no caderno. As crianças vão-se chegando às mães, sonolentas, esfregando os narizes nas camisas de noite.
Homens e mulheres em redor do morto, por entre as laranjeiras, reproduzem na memória o rosto daquela por quem ele se matou.
*
Dura de carnes, olhos oblíquos de serpente, chegara num fim de Verão poeirento ao bordel a aldeia.
Não se lhe conhecia o passado e futuro, dizia-se que não tinha. Resumia-se à dureza das carnes, aos olhos rasgados. Destilava encanto. Recebia os homens no seu quartinho caiado do bordel e lavava-se sempre em seguida.
De um que lhe escrevia poemas torpes, não havia água que removesse do seu corpo um indizível cheiro a violetas.
*
De olhos abertos, secos de lágrimas, sob a flor das laranjeiras. Engalfinhado nas mãos, o caderno de poemas.
Chega um padre: numa das mãos a candeia, a outra segurando a bainha da sotaina. O enterro foi feito logo pela manhã.
Uma das mulheres retirou das mãos do morto o caderno e pediu a um moço de recados que o fosse levar à casa das mulheres.
É esta a história de uma prostituta muito velha, enlouquecida pela sífilis, que recebe os homens declamando poemas de amor de um caderninho muito velho e com capas pretas.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

arrepiante...comovente

10:56 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

gosto. mais uma vez devo escrever que gosto.

12:48 a.m.  

Enviar um comentário

<< Home