quarta-feira, dezembro 06, 2006

"Histórias da Loucura Normal"

Ele chega. Ele chega sempre a correr, cheio de coisas para fazer noutros lugares. Eu sou este lugar. Ele, procura-me. Eu, peço. Ele chega e eu abro a porta primeiro e o corpo depois. Quando há tempo, abro também a alma. Ele nunca tem muito tempo mas atrasa-se sempre. Ele avança as mãos. Pertencem-lhe os meus seios entre os dedos e os dentes. Ele avança e eu apresso-me a oferecer o corpo todo. Tenho pressa (tenho urgência, o que é diferente) em entregar as partes mais recôndidas da anatomia. Ele estende as mãos e eu quebro o corpo para lho entregar, para lhe depositar nas mãos a boca e o sexo. Despojo-me da pele e dos membros para lhos dar ainda. Ele é muito belo, pelo menos aos meus olhos. Eu finjo que não reparo, que não vejo. Depois, meço-lhe a beleza com a boca. As mãos dele varrem-me o corpo, entram por mim, reconhecem-me o interior. As minhas mãos maravilham-se muito com o facto de ele ser palpável, de ter uma forma que, de tanto ansiar por ela, julguei ser irreal. Beijo-lhe a carne, chamo pelo seu nome - nomear é reconhecer. Devagar beijo-lhe o comprimento do sexo, fundamentalmente para que me perfure também a boca. Beijo-lhe o sexo porque é bom e sabe bem. A boca dele envolve-me os seios, desce-me o corpo e suga-o. Já não sou eu, sou coisas que lhe entrego, tremuras e a comtemplação do seu nome soletrado alto. Ele volta-me o corpo e eu sou a resposta às voltas que me dá e estremeço e tremo convulsamente. Ele sou eu, no fundo de mim, profundamente dentro de mim como um barco. Eu abro o corpo e peço-o inteiro. Eu quero-o muito e nem sempre sei como. Caimos finalmente um dentro do outro. Ele veste-se e eu não. Ele tem pressa - ele tem sempre pressa - eu desmarco a minha vida para não ter pressa de o receber.
- Dá-me ainda um beijo. Despe-se. Ofereço mais uma vez a contração do meu corpo à medida das suas mãos. Ofereço-lhe a boca e os braços. Cobre-me com a língua, com o hálito e com as mãos. Cobre-me com o corpo e eu quero. Bebo-lhe o sexo e limpo-lhe o corpo. É bom. Veste-se. Tem sempre pressa.
- Não vás.
-Tem de ser.
Não consigo perguntar mais nada. Digo-lhe que espero.

1 Comments:

Blogger nossoautista said...

Pois é.. muitas vezes oferecemos assim, porque é bom, mas também porque é assim mesmo que nos pedem.
Este texto tá muito bonito, muito indo ao cerne da questão, mostra o bom e mau.
Admito que eu quereria estar dar tudo a quem não tem tempo, mas por vezes faço precisamente o mesmo!

11:21 a.m.  

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